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terça-feira, 30 de junho de 2015

[RESENHA] Cachorro do Mato, Andreas Nora


Cachorro do mato
Ano: 2014 / Páginas: 145
Idioma: português
Editora: Livre Expressão


Andreas Nora é um escritor de temas realistas do cotidiano. Seu romance Cachorro do Mato, aborda temas como drogas, a vida nas ruas, o abuso de autoridade por parte da polícia, o preconceito da população com os moradores de rua.

O livro é narrado em primeira pessoa onde o narrador é o próprio protagonista que se intitula como “Cachorro do mato”, expressão esta que dá nome ao livro. Um homem que resolve abandonar sua vida antes regrada para viver sem regras, sem pressão, sem precisar pensar em pagar contas ou pensar no que os outros vão achar disso. Acompanhado de seu cachorro, o homem vive várias experiências durante a estória, umas boas e outras nem tanto.

Que importa a importância a tudo que se é dado como se tudo fosse eterno, como se tudo fosse o nirvana que surgiria como prêmio lá na frente; só me importa o agora, essa respiração, essa batida cardíaca silenciosa que chega aos trovoes em meus ouvidos; só me importa a minha doação para a partícula mínima que essa noite me dá; não quero saber do próximo segundo.

 Com uma escrita densa, o protagonista não mede palavras para expressar o que sente e como se sente com relação à sociedade e ao julgamento das pessoas.  O autor utiliza um linguagem natural e por vezes até chula, porém isso faz com que se torne mais realista.
Repleto de reflexões sobre diversos temas como a vida, a solidão, relacionamentos, drogas, regras da sociedade, o autor mostra ao leitor uma realidade pouco vista nos livros. Uma realidade de pobreza, mendicância, drogas e sexo. Por não querer se enquadrar às normas, o protagonista abandona tudo e entra numa decadência que nem ele mesmo percebe. Mas a verdade é que ele está feliz daquela forma e para ele não importa. Vive como quer, faz o que quer e quando quer.

Detesto a solidão que se faz com gente perto.
Tenho um único propósito: viver; viver ao meu modo, do jeito que sei, do jeito que quero. 

Particularmente gostei muito das reflexões sobre empatia, solidão, trabalho mas não foi um livro fácil de ler. Um livro que é tão real, tão denso que muitas vezes precisei parar a leitura para continuar em outro momento.

Psicanálise, para mim, essa porra toda não passa de uma grande besteira, uma embromação; punheta de pau mole; a verdadeira análise para mim é aguentar as porradas e sair ileso.
Olho o sol e não sei mesmo se estou na parte da manhã ou na parte da tarde. E que tem a ver se estou na parte da manhã ou da tarde? E o que tem a ver se já é noite? E que diferença faz a chuva do sol. O importante não é o tempo dos dias, mas em que tempo está a alma.

Existe uma crítica muito grande com relação ao abuso da polícia bem como o preconceito da população com relação a usuários de drogas e moradores de rua. Porém existe um outro lado da moeda, o livro também mostra pessoas que se sensibilizam com aquela situação e querem ajudar.

Em certo ponto, o protagonista faz uma reflexão sobre o suicídio, dizendo que não gosta nem de pensar sobre isso. Porém, ao meu ver, o que ele fez consigo foi um verdadeiro suicídio. O protagonista passou o livro todo procurando encontrar a si próprio, a encontrar o seu EU e esqueceu que ele também é feito de passado. Que o EU depende de todas as coisas pelo qual passou. Por isso vejo como um suicídio do seu EU para passar a ser outra pessoa.

É com certeza um livro que divide opiniões. Ou você ama ou você odeia. Mas se você não gosta de livros complexos, reflexivos e cheio de palavrões não leia!
Mas se você gosta de leituras diferentes, não liga muito para a linguagem chula  e quer ter uma experiência como você nunca teve na vida, esse é o livro perfeito para você!


A sinopse do livro é uma transcrição encontrada logo nas primeiras páginas.

Sinopse:
Cachorro do mato - "... e ri, e ficamos conversando e fumando; de vez em quando eu bebia uma cachaça, e ela me chamou para cheirar e me perguntou por que nós não íamos para um hotel, e eu topei. Fui ao banheiro e cheirei uma longa carreira, e ela foi e cheirou também, e continuamos a devorar cerveja e cigarros, e tanto a loira como eu já estávamos muito bêbados, e me esqueci de Jose, e paguei a conta, e saí a pé noite afora com a loira das coxas bonitas e fomos parar num hotel meia-boca e ..."